Literatura fora das necessidades básicas: por que o livro não chega a todos?
- Thaisa Lima

- 4 de mai.
- 3 min de leitura

A literatura fora das necessidades básicas revela um dos maiores problemas culturais do Brasil: o acesso desigual à leitura. Neste texto, Uiara Mei discute por que o livro ainda não ocupa o mesmo espaço que outras necessidades essenciais e como linguagem, mercado editorial e desigualdade social afastam grande parte da população da literatura.
A Literatura fora das Necessidades Básicas: O que acontece quando o livro não mata a fome?
Recentemente, ao acompanhar um debate sobre o mercado editorial e o consumo de cultura no Brasil, ouvi uma afirmação que me acompanhou por dias: a de que as pessoas não compram livros porque precisam priorizar o básico, como a alimentação. Essa frase, embora pareça um diagnóstico pragmático da nossa desigualdade, esconde camadas que precisam ser desveladas. Afinal, o que acontece quando o livro deixa de ser visto como nutrição e passa a ser tratado apenas como um excedente? "O que essas pessoas gostariam de ler?"
Essa pergunta revela uma verdade incômoda: para grande parte do Brasil, a literatura foi colocada fora das necessidades básicas. Enquanto o mercado discute tendências e teorias complexas, existe uma multidão na informalidade e na vulnerabilidade que sequer é vista como "público".
E a resposta, muitas vezes, é um silenciamento. Entre o "eu sobrevivo" e o "eu leio", há um abismo cavado pela linguagem erudita ou rebuscada que não comunica, mas exclui. Ao ler o livro "Comunicação e Expressão" para a faculdade de Filosofia, percebo que a busca por uma linguagem universal é, na verdade, uma busca impossível. A língua é viva, varia no tempo e se adapta às necessidades de quem a fala. Como aponta o material acadêmico na página 20: “É importante termos essa consciência para que possamos evitar atitudes preconceituosas e excludentes.”
O Degrau que Falta: O Olhar de Maslow
Isso me faz pensar imediatamente na famosa Pirâmide de Maslow. Na psicologia e na gestão, aprendemos que o ser humano precisa garantir a base — comida, segurança, descanso — antes de conseguir focar nos degraus de cima, como o conhecimento e a realização pessoal.
É cruel e até ingênuo exigir letramento e sede de leitura de quem gasta toda a sua energia vital apenas para manter a base dessa pirâmide de pé. Se a pessoa não conquista o básico, ela dificilmente terá fôlego para o degrau do saber. A literatura que não entende essa luta não é arte; é distanciamento social.
O Abismo entre o Erudito e o Popular
Existe uma fissura perversa entre o autor que domina a norma culta e o autor popular. Este último, muitas vezes ridicularizado por suas "obras simplórias", é quem realmente consegue falar com a massa. No entanto, não existe uma estratégia de entrega ou um modelo de negócio que caiba no bolso desse autor. Como costumo dizer: são muitas camadas neste abismo.
Essa barreira da linguagem me faz lembrar de um desabafo recente de uma influenciadora. Mesmo que os números oficiais de alfabetização no Brasil pareçam altos, a realidade do letramento pleno conta outra história: a grande maioria da nossa população ainda luta para interpretar textos complexos.
Como ela bem disse, quem tem o privilégio do estudo não deveria usar o conhecimento para excluir, mas para agregar. Afinal, 'a informação não compartilhada é uma vela apagada'.
Uma Provocação Filosófica
Podemos recorrer ao conceito de "Injustiça Epistêmica" de Miranda Fricker para entender esse incômodo. Quando a indústria literária e a academia invalidam a fala de quem não possui o "diploma da norma culta", elas cometem uma injustiça contra o sujeito enquanto conhecedor. Se a comunicação não acontece de acordo com a necessidade da comunidade, ela não é ponte; é muro.
Não se trata de tornar "regular as irregularidades" da nossa língua, mas de entender que a beleza da criatividade humana reside na sua capacidade de criar novas estruturas. Tornar a literatura acessível não é apenas baixar o preço do livro, é baixar o tom da arrogância acadêmica para ouvir o que a margem tem a dizer.
Afinal, se a literatura não serve para iluminar a realidade de quem sobrevive, ela corre o risco de ser apenas um objeto decorativo em uma estante elitizada. E, como bem sabemos, uma vela que não ilumina o próximo acaba se consumindo no próprio isolamento.
Você já sentiu que um livro não fala a sua língua? Vamos conversar nos comentários.
Publicado no meu blog dia 25/03/2026 – atualizado 30/04/26

Uiara Mei é escritora, terapeuta holística e criadora do projeto Narrativas Introspectivas. Natural de Macaé (RJ), constrói uma literatura voltada ao autoconhecimento, explorando a jornada humana através de narrativas sensíveis e reflexivas. Sua escrita une filosofia, emoção e consciência, propondo a palavra como ferramenta de transformação e existência.
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Obrigada pelo espaço. Esse assunto precisa ocupar mais espaços e ser pauta nas rodas de conversa.