JUSTIÇA POR ORELHA
- Francy Lima
- 27 de jan.
- 10 min de leitura
Atualizado: há 5 dias

A morte do cachorro Orelha: maldade, revolta e reflexão
Esta é uma história triste. E enquanto eu escrevo este texto, eu choro. Por Orelha e também por todos os outros animais que você me verá citando aqui.
Está todo mundo revoltado com quatro adolescentes que acabaram com a vida de um cachorro chamado Orelha. Orelha era um cão comunitário, já idoso, de 10 anos, morava na praia Brava em Florianópolis e era amado e cuidado pelos moradores da região. Ele não era bravo, não era um cachorro agressivo — ele era carinhoso e pacífico. Mas quatro adolescentes resolveram que iriam tirar a vida do Orelha, e não foi de qualquer jeito: foi a pauladas, por pura maldade, por uma "brincadeira perversa" de um grupo de garotos de classe média alta que já nasceram possivelmente acreditando na superioridade acima de tudo e de todos e que provavelmente foram ensinados de diversas maneiras sobre impunidade e o poder do dinheiro sobre as injustiças sociais.
São tantas camadas para se comentar neste caso. Uma delas é sobre o "Cão comunitário", todo mundo gostava, alimentava, brincava, mas ninguém quis de fato adotá-lo. Talvez por ser velho, sem pedigree, ou porque ninguém quis tomar esta responsabilidade para si. Às vezes algumas pessoas preferem comprar animais em pet shops, pagar caro por um bicho para exibir animais de raça como uma aquisição social. Não sei qual o contexto do Orelha, mas me veio esta reflexão enquanto escrevia o texto. Eu agradeço porque Orelha tinha ao menos um mínimo cuidado, mas este caso também serve para nos fazer refletir sobre tantos animais que estão por aí sem lar, perambulando pelas ruas, alguns maltratados e/ou abandonados por seus próprios tutores e vivendo como se não tivessem importância alguma.
Mas a revolta neste caso também nos leva a questionar as atitudes de pais permissivos: acham engraçado quando o filho puxa o rabo do gato, quando beliscam o cachorro, os ensinam a atirar no passarinho e assim criam pessoas que irão cometer atrocidades no futuro, inclusive há diveros estudos que linkam os atos de crueldade contra animais a personalidades de serial killers.
Mas ainda falando de permissividade, o pai, a mãe que defende o filho que fez bullyng com o colega de classe, que chutou o mendigo na rua, que foi mal-educado com a atendente da loja, que foi tirar satisfações com a professora por ela ter sinalizado o mau comportamento da criança na sala de aula ao invés de conversar ou castigar o filho, são pais assim que estão contribuindo para atitudes como esta. Logicamente nem todo mau-caráter é culpa dos pais, mas neste caso em específico somos levados a crer que sim, já que a punição pelo ato que chocou uma nação foi uma viagem para a Disney, intimidação e ameaças a moradores que pedem justiça por Orelha. #justiçapororelha
Há quem diga "são só garotos", imaturos, jovens que não tem noção do que fazem, mas é exatamente isso que assusta: eles serão os homens de amanhã; namorados, maridos, pais, artistas, juízes, empresários, políticos, donos do poder e repetindo com capa nova a mesma insensibilidade, a mesma arrogância, a mesma maldade da adolescência, provavelmente lapidada e com novas vítimas e novas formas de fazer o mal e sair impunes.
Não é apenas um erro de percurso, é um caráter que denota traços preocupantes. São jovens que ditam o que é descolado, que frequentam as ruas, a sociedade, mas usam a condição privilegiada de serem filhos de poderosos, amigos de integrantes da justiça para cometer atos infracionários. E aqui é importante dizer que estes garotos não cometeram apenas a crueldade contra Orelha, uma sequência de delitos em cadeia durante o mês de janeiro de 2026 são investigados sob a suspeita de serem eles os praticantes. Furto, depredação ao patrimônio público, maus tratos a outros animais e segue a lista. Não é apenas um erro de percurso, é uma maldade em cadeia que se fixa numa personalidade já fadada a tratar o outro como objeto de experimentação da crueldade gratuita.
São meninos que andam de carro importado, que frequentam eventos badalados, que tem seguranças, pais ricos e influentes e a certeza da impunidade sob o escudo da branquitude privilegiada. Fosse o crime cometido por um negro pobre já teríamos provavelmente a pena decretada e ninguém disposto a defender ou encontrar brechas na lei para defendê-lo. Os garotos provavelmente vão continuar sua vidinhas caras, viajando para a Disney, já que são menores, ricos e privilegiados.
São frutos do pratiarcado que carregam a frequente arrogância de quem nunca foi contrariado, do tipo que agridem os mais vulneráveis, aqueles que não conseguem se defender. São aparentemente seres intocáveis, do tipo que nas festas arrastam garotas até a parede, seguram, pressionam, conquistam e depois descartam só para ter o prazer de serem cruéis, são os que colecionam histórias de conquista sem vínculo afetivo porque aprenderam que homem não chora, que macho de verdade usa o poder, a humilhação, a violência para mostrar sua força. São provavelmente os que assistem os pais controlarem suas mães, humilhar as mulheres com quem residem ou trabalham, assistem os mesmos cometendo delitos corriqueiros, ameaçando quem se mete em seu caminho e sair impunes. A velha lógica da brutalidade pratriarcal que se sustenta pela opressão do outro em nome da virilidade de um. Impressionante notar que a maioria destes casos absurdos de violência são cometidos por homens, que hoje fazem crueldade com um cachorro e amanhã estarão fazendo com uma mulher, um mendigo, uma população. É a velha educação machista que ensina meninos, homens a agirem sempre com violência para provar que são homens.
São estes garotos que circulam perto de meninas, meninas que estão em perigo ao viver numa sociedade que fabrica homens para serem cruéis e provar a sua força através da violência. Eles estão por aí impecáveis com roupas caras, de marca, celular de última geração, aparência intocável, projetos de homens que só pensam em si mesmos, que são destituídos de sentimentos e veem no outro uma oportunidade para destilar seu aprendizado de atrocidades. Não são psicopatas, são o resultado de uma educação permissiva, narcisista que se ausenta de sentimentos e vê o outro como mero objeto a seu dispor. Assim se forma uma personalidade moldada por agressividade e blindada por privilégio socioeconômico que se fortalece na cor da pele e na proteção familiar.
Provavelmente são os que colecionam troféus, boas notas, posições de destaque na rica escola onde estudam, que falam inglês fluente, que são poliglótas, talvez, e viajam para o exterior com frequência levando na mala suas roupas de marca e seus dólares para gastar sem limites. São aqueles seres que estão acima de qualquer suspeita, bons garotos para todos os efeitos, até que se descortine o véu e se veja por detrás dele os rastros de uma educação falha e de uma sociedade adoecida, contaminada por traços fortes de machismo, violência, crueldade e impunidade vigente.
Tudo isso se deduz a partir dos acontecimentos. Os pais dos adolescentes em questão enviaram os filhos para a Disney. Esta foi a punição por um ato tão cruel e revoltante e me preocupa pensar o que estes rapazes serão capazes de fazer no futuro, tendo a proteção do dinheiro, dos pais e de uma justiça tão falha como a nossa?
Tudo Isso causou uma revolta imensa. As pessoas compartilharam notícias, todo mundo falando sobre o Orelha, e eu fico feliz em saber que muitas pessoas se sensibilizam com casos como esse, que muitas pessoas estão sensíveis à causa animal, que entendem o sofrimento de um cachorrinho que estava ali na sua vida e não estava fazendo mal a ninguém.
Isso realmente é revoltante: pensar que alguém, por um simples capricho ou maldade, vai lá e tira a vida de um bichinho, de um cachorrinho. A gente se revolta, nos perguntamos por quê? Nos perguntamos: até quando, até onde isso vai nos levar? Queremos punição, queremos que os responsáveis sejam responsabilizados, que haja justiça. A gente clama para que outros animaizinhos não passem por isso. E tememos por outros casos piores, inclusive com seres humanos, pois quem faz com um bicho, faz com uma pessoa.
Apesar de gritar "justiça por Orelha", aqui não falamos apenas de um cachorro, e mesmo que o fosse já seria o suficiente para pedir justiça, mas aqui estamos todos clamando por justiça pelo mendigo que é queimado vivo, pelos tantos outros animais que são maltratados, abandonados, envenenados todos os dias, pelas crianças que são deixadas na rua, pelas mulheres que são humilhadas, violentadas diariamente. O Orelha pede justiça por todos os bichos e pessoas que são vítimas de homens. (sim, porque são os homens os responsáveis por quase toda a totalidade de crimes e atrocidades do mundo). Homens que um dia foram garotos e adolescentes como estes que já na juventude destilam a violência que lhes foi ensinada como única forma de se afirmar.
Mas, diante disso, eu preciso fazer outra reflexão: nós estamos revoltados com a morte do Orelha, e sim, devemos estar revoltados com a morte dele para que outros cachorrinhos e gatinhos também não sejam vítimas, para que seres humanos não sejam vítimas, mas eu me pergunto por que a gente não se revolta com milhares de outros animais que são mortos todos os dias por nossa culpa?
Talvez você nunca tenha parado para pensar que a carne que está no seu prato foi um bichinho que morreu — e esse bichinho também merecia estar vivo, assim como o Orelha. Na minha concepção, não existe tanta diferença entre o cachorrinho que foi morto a pauladas e o boi que foi morto com uma injeção na testa no matadouro.
Aí você pode dizer: “Não, mas o boi foi morto de forma humanizada; ele não sentiu dor.” E nisso eu te convido a assistir o documentário A Carne é Fraca, um clássico brasileiro que revela a crueldade nos abatedouros e questiona justamente essa ideia de “morte humanizada”, com a qual muitas pessoas tentam justificar o abate de animais. Outra justificativa é a necessidade da proteína animal para a saúde humana, mas a ciência já prova que há os mesmos nutrientes em fontes vegetais e que o consumo de carne poderia ser totalmente descartado pelo ser humano.
O Documentário "Terráqueos" é outro vídeo que indico para que você entenda a crueldade contra os animais que está diretamente envolvida no consumo de carne, mas preciso te avisar que você verá cenas chocantes, porque a morte de qualquer animal, seja por pura crueldade ou sob a justificativa da alimentação humana é chocante.
Estes dois Documentários mostram que os animais que vão para o matadouro não estão alheios ao destino deles — eles sentem medo, ansiedade, estresse e reações emocionais diante do que estão prestes a enfrentar, e isso não é algo que se resolve com o termo “morte humanizada” ou com a justificativa de que precisamos comer carne. Se você é uma pessoa que realmente ama e se importa com os animais, é impossível assistir a estes dois documentários e não sentir nenhuma repulsa ou tristeza.
De antemão eu já te convido a Imaginar a agonia de um boi ou de uma vaca que entra num corredor estreito, vindo de uma viagem angustiante em caminhão, navio, etc, pressentindo que seu destino é a morte. Eu sei que este texto é triste, mas não existe outra forma de falar sobre isso com honestidade.
A gente também precisa sentir dó do boi, da vaca, da galinha, do porco, da ovelha — que são mortos todos os dias, aos milhares, para virar bife no nosso prato. E antes que você venha dizer que a gente come carne porque precisa da “proteína animal”, quero te dizer algo: o animal que você come se alimenta de plantas. E se ele se alimenta de plantas, então as plantas contêm todos os nutrientes que a gente precisa. Ou seja, seria muito mais lógico comer diretamente essas plantas ao invés de cultivar soja, por exemplo, para alimentar o boi, para depois matar o boi e comer o boi. É algo tão sem lógica que não existe explicação convincente.
Então eu quero que você aproveite esse momento em que está revoltado e com dó do Orelha para pensar também nos milhares de outros animais que são mortos todos os dias de forma cruel simplesmente para satisfazer o nosso apetite. E eu digo apetite porque não é para satisfazer necessidade de nutrientes — a gente consegue obter nutrientes de outras fontes.
Hoje eu quero fazer este apelo. E além de deixar a indicação para você assistir a esses documentários, te convido também a seguir o perfil da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e acompanhar os conteúdos que eles trazem sobre vegetarianismo, veganismo e defesa dos animais, te convido a pesquisar sobre toda a crueldade envolvida no consumo de carne, no consumo de leite e de todos os seus derivados, no consumo de ovos, tudo isso envolve sofrimento para com os animais.
Procure pesquisar as situações humilhantes em que galinhas e porcas vivem: elas são mantidas em jaulas tão pequenas que mal conseguem se mexer, injetadas com hormônios para reprodução constante, sem nunca ver o sol, vivendo apenas para por ovos ou reproduzir. Quando não são mais produtivas, são enviadas ao abate. Isso é muito triste. Talvez você nunca tenha parado para pensar nisso.
Você segue uma tradição: a tradição de comer carne, e talvez nunca tenha parado para questionar. Hoje eu estou aqui te convidando a parar para pensar, a assistir conteúdos vegetarianos e veganos. Eu não estou dizendo que você vai parar de comer carne hoje ou que vai se tornar vegano amanhã. Nada disso. É um convite para que você apenas comece a refletir, buscar conhecimento e fazer questionamentos.
Porque, assim como a gente não quer que nenhum cachorrinho ou gatinho morra ou seja agredido, também precisamos nos perguntar por que protejo tanto o cachorro e o gato e, ao mesmo tempo, não dou atenção para o boi, a vaca ou a galinha? Que tipo de especismo é esse? Eu defendo uma espécie e mato outra? Eu protejo um e como outro? É sobre isso que eu quero te convidar a refletir. E talvez esta crueldade passe despercebida porque não é noticiada como o caso do Orelha, você não está vendo, ninguém está falando sobre, os animais estão sendo abatidos lá no matadouro distante de você e isso passa tão despercebido que não te atinge no dia a dia, mas está na hora de pararmos de fingir que isso não acontece. Não dá para sentar tranquilamente na mesa todos os dias para comer carne e achar que está tudo bem e seguir a vida como se isso não fosse também nossa responsabilidade.
Hoje eu escrevo como vegetariana, quase vegana; eu não consigo ver casos como esse e ficar calada. Eu preciso falar por esses bichinhos que não têm voz. Eu preciso falar pelo boi, pela ovelha, pela galinha, pelo porco — que não conseguem falar por si mesmos.
Eu estou aqui falando por eles. E eu espero que essa reflexão te toque e que leve você a repensar hábitos e conceitos.
JUSTIÇA POR ORELHA E POR TODOS OS ANIMAIS (e pessoas) QUE MORREM TODOS OS DIAS DESNECESSÁRIA E INJUSTAMENTE.
Por Francy Lima
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Leia o livro "O gato persa e brownies de chocolate" (uma história para rir e esquecer essa crueldade, mas também para te levar a refletir de forma leve sobre tudo o que falamos aqui)
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