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FESTA DE DEBUTANTE: Uma tradição machista que quase ninguém questiona:

Você já parou para pensar no real significado da festa de 15 anos?


A tradição da festa de debutante é algo que vem passando de século a século e que faz parte do senso comum, da coleção de costumes e tradições que a sociedade carrega. A gente sempre participa, organiza, faz a festa, mas raramente — ou talvez nunca — para para refletir sobre o que isso realmente significa.


E já quero deixar algo muito claro desde o início: este texto não é um ataque à festa de debutante, nem uma defesa da sua extinção. A proposta aqui é outra. É provocar reflexão. É convidar você a exercitar o senso crítico.


O senso crítico é o que nos permite discutir, refletir, enxergar nuances e pormenores. É o que nos torna humanos e nos faz, ao invés de apenas consumir tradições, consumi-las com consciência.


O problema não é a tradição — é a falta de reflexão


Eu acredito que um dos grandes problemas da sociedade sempre foi a ausência de reflexão. A gente aprende a repetir comportamentos, costumes e discursos sem questionar.

Eu costumo usar muito o exemplo das músicas. Às vezes estamos ouvindo uma canção com uma letra extremamente machista ou sexista, mas o ritmo é gostoso, a letra é chiclete, fica na cabeça. E muitas pessoas continuam ouvindo sem questionar. Outras até continuam ouvindo, mas desenvolvem a capacidade de argumentar contra aquela mensagem, de não permitir que ela se instale na mente e influencie atitudes, valores ou comportamentos.


É aí que entra o senso crítico. Ele não serve para nos afastar do mundo, mas para nos proteger: de nós mesmos, das armadilhas sociais e de ideias que não nos fazem bem.


A origem da festa de debutante: o que quase ninguém conta


A festa de debutante nasceu em séculos muito remotos, especialmente em contextos europeus e medievais. Naquele período, a mulher era vista como um produto, um objeto, muitas vezes um peso financeiro para a família.


A festa era organizada para apresentar a menina — geralmente com 14 ou 15 anos — à sociedade. Ela era colocada ali como uma mercadoria em vitrine. Homens ricos, com posses e status social, eram convidados. A jovem era admirada, cortejada, e os interessados faziam propostas ao pai.


O pai escolhia aquele que julgava mais vantajoso social e economicamente. A menina, então, passava do domínio do pai para o domínio do marido, que passava a deter poder e controle sobre sua vida.

Essa é a base histórica da festa de debutante. E, mesmo séculos depois, muitos dos símbolos permanecem.


Século XXI, 2026… e o mesmo discurso


Hoje, no século XXI — mais precisamente em 2026 — ainda celebramos a festa de 15 anos como o momento em que a garota “passa de menina a mulher”.


Eu lembro claramente da época em que eu tinha uma empresa de cerimonial. Quantas vezes eu mesma disse no microfone: “E agora, fulana de tal passa de menina a mulher”.


Mas será que alguém realmente parou para refletir sobre isso?

Uma menina de 15 anos não pode votar, não pode dirigir, não pode abrir uma empresa, não tem autonomia legal sobre a própria vida. Para todos os efeitos sociais e jurídicos, ela continua sendo uma adolescente. Mas, naquela noite, ela é apresentada como mulher.

Essa contradição é enorme — e perigosa.


A vitrine, os olhares e a sexualização precoce


Na festa, essa menina é colocada como objeto de contemplação. Está maquiada, com penteado elaborado, vestido sofisticado, muitas vezes sensual. Ela dança, sorri, posa. Está ali, exposta aos olhares — inclusive aos olhares masculinos adultos. E sujeita a comparações, comentários e críticas de outras mulheres.


Existe uma mensagem silenciosa, porém muito clara: ela está pronta. Pronta para namorar, para ser cortejada, para ser desejada.


E isso não é apenas percepção individual. Segundo um relatório da American Psychological Association (APA), a sexualização precoce de meninas está diretamente associada a problemas como baixa autoestima, distúrbios de imagem corporal, ansiedade e depressão. A APA aponta que práticas culturais que adultizam meninas reforçam a ideia de que o valor feminino está ligado à aparência e ao desejo que desperta nos outros.


Referência:American Psychological Association. Report of the APA Task Force on the Sexualization of Girls (2007).


O impacto silencioso na construção da identidade feminina

Desde cedo, meninas aprendem que precisam ser bonitas, arrumadas, desejáveis, que não podem envelhecer, que precisam se encaixar em padrões para serem escolhidas. A festa de debutante reforça exatamente isso.


Toda a atenção está na aparência. Na maquiagem. No vestido. No corpo. No quanto ela agrada.

E aí eu pergunto: o que isso faz com a cabeça dessa menina? Que tipo de valor ela aprende a atribuir a si mesma?


A menina pode crescer achando que a sua vida gira em torno de sua visibilidade, da sua capacidade de encantar, de ser escolhida e isso pode levar a dependência emocional, resultando em relacionamentos tóxicos, baixa autoestima, incapacidade de autoafirmaçao, desenvolvimento de habilidades, etc.


O sonho da princesa que será escolhida por um príncipe e ser feliz para sempre pode estar implícito neste combo e dificultar a independência na vida adulta. A valsa dançada com o pai que termina numa dança com outros homens durante a festa, é o símbolo de um domínio que passa de um homem para outro e de forma silenciosa constrói no imaginário feminino a ideia de dependência fincada na figura de um homem sem o qual ela nunca estará completa.


De forma inconsciente esta garota aprende que seu valor está na capacidade de atrair, chamar a atenção por sua estética, beleza, sensualidade, exposição. A cobrança por um visual impecável, a competição com outras mulheres, o seu corpo como produto e moeda de troca, único atributo que lhe dá valor. Esquecem-se as habilidades e competências intelectuais, que são, de fato, o que a tornam humana.


Então… abolir a festa é a solução?


Não. Esse texto não é sobre abolir. É sobre questionar.

Vale a pena fazer uma festa de debutante? Se eu fizer, como posso fazer diferente?Que significado eu quero reforçar? Que mensagem eu quero deixar para minha filha?


Talvez seja possível ressignificar. Talvez seja possível criar novas formas de celebrar o crescimento sem repetir símbolos que carregam uma origem tão problemática.


Talvez substituir a festa por uma viagem, pela aquisição de algo que seja desejo da garota, ou proporcionar uma experiência que tenha de fato significado para a menina. A reforma do quarto, uma coleção exclusiva de seus livros preferidos, um final de semana com amigas, um curso que ela queira muito fazer, uma celebração intimista só com as melhores amigas, a produção de seu álbum de fotos, de um documentário, do seu próprio filme ou música. São apenas ideias soltas para mostrar que existem alternativas para a comemoração de um aniversário. E que este aniversário não precisa ser o de 15 anos. Afinal, a festa de 15 anos é apenas uma sugestão de adultização com um fim claro de servir a sociedade, especialmente masculina como já discutimos anteriormente.


Um convite à reflexão (e não à culpa)


A intenção aqui é simples: incentivar o desenvolvimento do senso crítico. Questionar tradições que repetimos automaticamente. Refletir, debater, conversar.


Que a gente pare de apenas repassar costumes e comece a escolher conscientemente o que faz sentido manter, transformar ou abandonar.


Se este texto fez você pensar, ele já cumpriu o seu papel.


Francy Lima

 
 
 

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