O cansaço de ser mulher no Dia Internacional da Mulher
- Mércia Souza

- há 1 dia
- 3 min de leitura

O Cansaço de Ser Mulher e o Orgulho de Não Desistir
Por que ainda precisamos falar sobre violência contra a mulher no Dia Internacional da Mulher?
No Dia Internacional da Mulher, eu sei que pode ser cansativo abrir as redes sociais e ver, todos os dias, as mesmas postagens. É exaustivo falar de feminicídio, violência doméstica, estupro e misoginia. Mas, se é cansativo para você ler sobre isso, imagine para nós, que vivemos essa realidade na pele.
Se é cansativo para você, imagine uma mãe ouvindo o próprio filho falar das mulheres como se fossem bonecas em uma prateleira de supermercado. Imagine o peso de ouvir: "Tenho vergonha do meu filho; ele trata mulheres como objetos".
O espelho da educação
Imagine sua filha ouvindo suas piadas machistas, seus relatos de conquista ou o "direito" que você acredita ter de sair com quem quiser, reforçando a frase: "Eu sou homem". Isso molda o que ela aceitará no futuro: manipulações, traições e, no limite, a violência. Afinal, ela aprendeu em casa que "é apenas uma mulher".
E sua esposa? Em vez de um "eu te amo", ela enfrenta tentativas de controle e piadas que diminuem o gênero dela para inflar o seu ego.
"Ah, mas é só uma brincadeira."
Se você não entende que o que fere não é brincadeira, qual é o seu papel como pai, filho ou companheiro? Se você não se preocupa com a dor que causa, que tipo de homem você escolheu ser?
Memórias de uma Resistência Solitária
Minha trajetória começou cedo. Aos 14 anos, enquanto o fluxo comum era a administração, eu queria o curso de edificações. Em um ano difícil, de greves e escassez, decidi trabalhar para ajudar minha família. Procurei emprego escondida do meu pai e, aos 15 anos, consegui.
Minha mãe assinou a autorização em segredo, mas o momento da verdade chegou. Meu pai, em um raro momento de sobriedade e calma, aceitou, mas com uma condição que me feriu profundamente:
— "Ela tem que pedir ao namorado; ele pode não gostar e ela tem que obedecer a ele."
Ali, aos 15 anos, vi meu pai autorizar um garoto de 18 a mandar em mim. O ódio me deu forças. Eu não pedi permissão; eu fui trabalhar.
O Juiz e o Papel em Branco
Eu queria estudar à noite e, na época, precisava de autorização judicial por ser menor de idade. Fui sozinha ao juiz. Ele me olhou e, com o desdém de quem dita o destino alheio, disse:
— "Você é uma menina bonita. O que precisa é aprender a cuidar da casa e arrumar um marido, em vez de arrumar problemas estudando à noite."
Ele me entregou a negativa. Eu senti a impotência, mas não a derrota. Rasguei aquele papel na frente dele e joguei no lixo.
Anos depois, no meu divórcio, ouvi de um psicólogo que eu "deveria estar traindo ou com depressão", pois não aceitavam que uma mulher simplesmente quisesse a liberdade.
O que temos para comemorar?
Tive mulheres que me ensinaram, no silêncio, que eu poderia ser o que eu quisesse. Tive homens que tentaram me ensinar apenas o que a sociedade esperava de mim.
Neste Dia Internacional da Mulher, tenho muito a comemorar, mas pouco devo aos homens que disseram me amar. Minha comemoração é fruto da minha própria insistência.
A pergunta que fica para os homens é: O quanto você tem contribuído para a violência — seja por palavras, silêncios ou "brincadeiras" — no seu papel de pai, filho ou companheiro?
E para as mulheres: Orgulhem-se. Comemorem o fato de não terem desistido em uma sociedade que tenta nos condicionar a servir. Nossa liberdade é a nossa maior conquista.
Qual foi o momento que você precisou rasgar o não de alguém para seguir seus sonhos?
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Ainda temos muito o que conquistar! Mas hoje é dia de comemorar o que já conquistamos. Parabéns pelo excelente texto.