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Não deixem o morto sozinho: uma reflexão sobre a morte e a vida

Corredor silencioso de velório com caixão ao centro, simbolizando reflexão sobre a morte, despedida e solidão no fim da vida.

A crônica Não deixem o morto sozinho mistura humor, estranheza e sensibilidade para propor uma reflexão sobre a morte, a solidão e aquilo que realmente importa em vida.



Toda reflexão sobre a morte costuma revelar algo sobre a vida. Quando eu digo que sou uma criatura de hábitos estranhos, as pessoas olham pra minha carinha de anjo e não acreditam.


Acham que minhas esquisitices se resumem a comer manga verde com sal ou algo assim.

Mas a coisa muda de figura quando me conhecem melhor.


Se tem uma coisa que eu não gosto de ver… é um morto sozinho.

Acho triste. Desumano, até. Largar alguém que está vivendo seus últimos momentos entre os vivos… sozinho.


Calma. Não precisa me olhar com essa sobrancelha arqueada. Eu não saio por aí procurando defuntos desacompanhados pra fazer companhia.


Mas, já que você estranhou… deixa eu te explicar.


Vou te contar sobre o dia do velório da minha avó.


Antes de tudo: eu detesto enterros. Sim, eu sei… contraditório.

Vou pouquíssimo a funerais (graças a Deus), mas quando vou… sempre procuro por um morto desconhecido pra dar um último adeus.


É macabro?


No dia em que minha avó faleceu, levamos o corpo para um desses espaços de velório: um lugar grande, com lanchonete na entrada, banheiros, café… e quatro salas onde os mortos são velados.


Minha avó ficou na primeira sala.


Um cubículo apertado, com um calor infernal e um ventilador barulhento que claramente já tinha desistido da vida.


Minha preocupação era simples: não deixar minha avó sozinha.

Na sala ao lado, outro corpo era velado — mas estava cheio, então só estiquei o pescoço e dei um adeus de longe.


Tudo indicava que só havia dois mortos ali. Segui minha vida.


Até que o calor começou a incomodar, o movimento aumentou e eu saí da sala.

Fui sentar de frente pra outra.


E foi aí que eu vi.

Um caixão… sozinho… no meio da sala.


So-zi-nho.


Levantei na hora.


Olhei pra direita. Ninguém. Pra esquerda. Ninguém. Esperei… nada.


Aquilo começou a me dar uma aflição.

Quando percebi, já estava indo até ele.

Antes de entrar, ainda olhei pra minha família — e vi Maria balançando a cabeça, em negativa.


Ignorei.


Entrei.


Era um senhorzinho.

Um senhorzinho!

Quem deixa um senhorzinho sozinho assim?


Na minha cabeça, ele estava ali, de pé ao lado do próprio corpo, se sentindo abandonado.


Sem ninguém.

Sem despedida.

Sem uma única pessoa pra chorar por ele.


Chorei.

Chorei por ele. Chorei pela minha avó.

Fiquei ali um tempo, fazendo companhia… até ouvir um barulho no fim do corredor.


A porta que ficava sempre fechada… abriu.


E a curiosidade — essa minha velha inimiga — entrou em ação.


Quando vi o que tinha lá dentro… meus olhos brilharam.


Um corpo sendo preparado.

Dois funcionários organizando tudo para o velório.


Eu sei. Você deve estar pensando que eu sou louca.

Mas eu gosto de observar a morte.

Porque ela me lembra da vida.

Olhar um corpo inerte me faz pensar nas palavras que não foram ditas, nas coisas que a gente insiste em valorizar, nas relações que a gente negligencia.

A morte tem uma beleza… estranha. Mas tem.


E eu gosto de pensar que, pelo menos naquele momento final, alguém se importou.

Mesmo que seja um completo desconhecido.


Já pensou passar pela vida inteira… e não ter ninguém pra te acompanhar no fim?


Por isso eu sempre digo:

Não deixem o morto sozinho.


Quanto ao senhorzinho da sala…

Quando estávamos saindo com o corpo da minha avó, a família dele chegou — rindo alto, como quem ia pra uma festa.

Na hora, eu estranhei.

Mas preferi acreditar que ele não queria choro.


Deixei o velhinho ali, agora acompanhado…

com um certo alívio.

Afinal…

ele não estava mais sozinho.


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