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Tecnologia e ansiedade: A tecnologia roubou nosso tempo

Quanto mais tecnologia, menos tempo se tem - crônica de Francy Lima


tecnologia e ansiedade: como as tecnologias e IAs estão nos deixando mais ansiosos e desatentos


Todos os dias eu vejo posts vendendo a ideia de que a tecnologia, as IAs estão surgindo para poupar nosso tempo, otimizar tarefas e nos presentear com mais momentos a sós, com a família ou amigos.


Hoje existem inúmeras tecnologias que automatizam tarefas repetitivas, constroem sites, aplicativos, respondem clientes, revisam texto, agendam compromissos, fazem compras...


Tudo com um único clique, um bom prompt ou um comando de voz certeiro. Eu que fui do tempo em que a gente precisava levantar para trocar o canal da TV, que esperei em fila de orelhão para falar com parente distante e tinha que ir a casa da minha vó para assitir Chacrinha na TV preto e branco de tubo, realmente vejo o quanto o mundo evoluiu. Às vezes me sinto uma dinossaura, aquele ser pré-histórico que viu o mundo ser criado e viveu em épocas em que nem a melhor ficção científica imaginaria o que temos hoje.


Mas apesar de ter vivido tempos em que internet, telefone celular, redes sociais e IAs eram coisas inimagináveis até para as cabeças mais criativas, eu me dou bem com as tecnologias e como não sou boba, claro que faço bastante uso dos recursos e inovações hoje disponíveis. Sou uma senhora bem antenada, destrincho as coisas desse mundo moderno e utilizo tudo que possa me ajudar a produzir mais e me sentir parte do planeta desenvolvido.


Talvez seja por isso que observo o quanto essa ideia de tecnologia para poupar tempo é contraditória. E antes que você conteste, deixa eu te explicar: tudo está mais prático, mais fácil e rápido de fazer. Imagine as mulheres do passado tendo que acordar às 3h da manhã para pilar o milho, o arroz, o café, tendo que fazer tudo de forma primitiva para alimentar a família. Eu ainda cheguei a usar pilão na casa da minha vó, mas na época já era mais um hobby do que uma necessidade. Porém, hoje a mulher vai no supermercado e compra o milho, arroz, café em pacotinhos, leva para casa e rapidinho o microondas, a airfly, a cafeteria lhe entregam o alimento pronto. Que maravilha! A gente agradece.


Na adolescência eu e minhas irmãs éramos obrigadas a ficar de 4 passando cera no chão de cimento vermelho para depois lustrar com a enceradeira e isso levava uma manhã inteira. A modernidade nos livrou deste trabalho humilhante. Hoje os pisos já vem com brilho, os robôs já varrem e limpam o chão e para tarefas mais complexas há máquinas de todo tipo nas casas, nas indústrias, nas empresas, no mundo.


E o que dizer das cartas que a gente escrevia para amigos e parentes distantes e esperava 20, 30 dias para que o correio nos trouxesse resposta? Hoje o WatsApp entrega mensagens em segundos. Acabou com as cartas, os telegramas, o fax.


E os discos de vinil, a fita cassete, a vitrola, o toca CDs? Todos mortos por conta do Spotify. Nosso programa de sábado que era ir a locadora com a família escolher o filme para alugar no fim de semana, agora virou um aperto no botão do controle remoto e a conta do streamig.


Quero um texto, um aplicativo, um site, um agente... em segundos a IA me entrega. Realmente o mundo evoluiu, nosso tempo, nossas forças foram poupados. Agora tudo se resolve com um botão, uma mensagem de voz, um comando para Alexa, um prompt para Chat GPT.


Mas então porque as pessoas continuam correndo? Por que as frases da atualidade ainda são "estou na correria", "tô no corre", "não tenho tempo?"


Às vezes tenho a impressão que a tecnologia veio embalada na ansiedade.


Eu tenho uma teoria: quanto mais tecnologia, mais possibilidades se tem. E a gente que não precisa mais pilar o café, rapidamente quer fazer outra coisa, e a cada nova tecnologia, mais possibilidades e mais ideias e mais projetos e mais negócios e mais e mais e mais.


Quando se percebe estamos tão lotados, tão cansados, tão sobrecarregados que a tecnologia parece não ter cumprido seu papel.


Às vezes me pego pensando que preferia a vida quando ela não era tão tecnológica. Quando as pessoas mesmo trabalhando bastante, tinham tempo para sentar na mesa sem responder mensagens no WatsApp, quando as famílias se divertiam contando causos do seu dia ao redor de uma mesa, e quando as cartas eram esperadas como tesouros que chegariam em breve, quando a gente dormia cedo porque não precisava ficar horas escolhendo o que ver no catálogo infinito da Netflix, quando a gente tinha que esperar o noticiário para saber o que estava acontecendo no mundo ou quando o melhor filme de terror eram as histórias que nossos avós contavam sobre lobisomens e casas mal-assombradas, quando usávamos câmeras analógicas, torcíamos para não queimar o filme e esperávamos ansiosos pela revelação das fotos.


As tecnologias vieram para facilitar nossa vida, mas vez por outra eu penso que a gente não está sabendo usá-la direito porque cada dia ficamos mais cansados, lotados e apáticos neste mundo de tanta informação e correria.


Onde está o tempo livre que nos prometeram? Olho para o lado e vejo todo mundo ansioso, apressado, lotado, exausto... quando irão inventar uma tecnologia para nos livrar de isso tudo?


Talvez o que a gente precisa mesmo é menos tecnologia de vez em quando. É caminhar com pé descalço, tomar um banho de cachoeira, viver momentos bons em off, sem postar nas redes sociais, sumir por uma semana, ver o por-do-sol, dançar na chuva, rir com amigos, conhecer alguém interessante sem usar aplicativo de relacionamento, fazer a própria comida sem lembrar que existe Ifood, ouvir aquele disco antigo, escrever uma carta à mão para alguém, se entregar a um livro, esquecer o celular por algumas horas, fazer uma pesquisa sem usar o Chat GPT, criar algo interessante sem perguntar a opinião da IA, voltar a fazer sessões fotográficas presenciais, sem lembrar que a IA me entrega um ensaio em minutos, usar as mãos para fazer arte, pintar, bordar, desenhar...jogar banco imobiliário, jogo da velha, dominó, voltar a ter as agendas de papel, os cadernos de disparate, as coleções de papeis de carta... há tanta coisa para se fazer sem tecnologia e talvez elas sejam as melhores.



Francy Lima


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