7 Microcontos de Thaisa Lima | Especial Desafio Literária Mais
- Francy Lima
- há 11 horas
- 5 min de leitura

Durante os sete dias do Desafio de Microcontos da Literária Mais, além das participantes inscritas, a equipe organizadora também entrou na proposta criativa diária: transformar imagens e provocações em histórias curtas, intensas e impactantes.
Os textos da equipe não participaram da seleção oficial, mas nasceram sob a mesma pressão criativa: escrever rápido, sentir fundo e contar muito em poucas palavras.
Nesta edição especial, reunimos os 7 microcontos de Thaisa Lima, marcados por suspense, terror psicológico, ironia e emoção.
Sobre a autora
Thaisa Lima nasceu em 1980, em Maceió. É autora de Minha Resiliência, A Casa e Outros Contos e diversos textos publicados de forma independente.
Desde 2018, dedica-se à carreira literária, explorando narrativas intensas, femininas e emocionalmente afiadas.
Também atua como criadora de conteúdo digital. Geek, dorameira, mãe de sete cães, vegetariana e apaixonada por dramas, divide seu tempo entre a escrita, os animais e a criatividade.
📍 Instagram: @thaisalimagb
🎵 TikTok: @thaisalimagb
Os 7 microcontos de Thaisa Lima no desafio
Dia 1 — Ainda chora

O choro ficava mais alto a cada passo.
Fino. Irritante. Incessante.
Aquilo estava me atravessando por dentro.
— Para… por favor…
Minha voz não saía.
Me arrastei pelo corredor escuro. A parede áspera raspava na minha pele enquanto eu avançava. A luz quente escapava pela porta entreaberta no fim do corredor. Tinha algo escorrendo entre minhas pernas, quente, espesso, mas não parei.
O choro vinha dali.
Sempre vinha.
A porta se abriu antes que eu tocasse a maçaneta.
Congelei.
Por um segundo, soube que não devia entrar.
Mas o choro…
Entrei.
O quarto parecia intacto. Quase acolhedor. Luz suave, móveis no lugar.
O berço estava vazio.
O som vinha de baixo da cama.
Ajoelhei devagar. O chão frio grudava na minha pele. Inclinei o rosto, prendendo a respiração.
Nada.
Silêncio.
Não.
Ainda estava ali.
Mais distante.
Me arrastei até o banheiro.
Cada movimento parecia errado. Como se meu corpo não fosse meu.
Empurrei a porta.
O choro cessou.
De uma vez.
O banheiro estava vazio.
Fiquei parada. Tentando ouvir qualquer coisa.
Nada.
Só minha respiração falhando.
Olhei para minhas mãos.
Tremiam.
Havia sangue.
Muito.
E uma tesoura.
Foi quando senti.
Um vazio profundo dentro de mim.
E mesmo no silêncio…
eu ainda conseguia ouvir o choro.
Um terror psicológico sobre perda, culpa e o som que insiste em permanecer.
Dia 2 — O Que Ainda Ecoa

A risadinha infantil ecoa na minha cabeça.
Não sei o que assusta mais: o som… ou o que falta.
Caminho pelo piso de madeira, mas não sinto os passos. Nem o rangido.
Não sinto…
O que eu deveria sentir mesmo?
À frente, formas cobertas por lençóis. Acho que são móveis. Ou foram.
A casa parece esquecida.
O chão está coberto de poeira intacta.
As janelas estão vedadas. Não sei se é noite. Não sei há quanto tempo estou aqui.
Ainda assim, continuo andando.
A risadinha outra vez.
Mais perto.
Unhas finas deslizam pelo meu crânio. Minha visão vacila, como se algo fosse puxado de dentro.
Tento segurar.
O quê?
Escapa.
Uma porta entreaberta deixa escapar luz amarela. O único lugar que parece… vivo.
Eu entro.
A sensação é imediata:
já estive aqui.
Ela está lá.
Sorrindo.
Pequena demais para o que segura nas mãos.
Engrenagens. Vidro. Luz pulsando devagar.
— Doce…
Ela me observa como quem reconhece.
E talvez reconheça.
Porque, por um instante, quase lembro.
Quase.
Então some.
E a risadinha volta a ecoar.
Sempre.
Memória fragmentada, infância e uma presença que nunca desaparece.
Dia 3 — 10:10

O vento daquela noite atravessava a casa em assobios longos. No sítio isolado, tudo parecia em paz.
O relógio sob a mesa marcava 10:02.
No quarto, a menina mantinha os olhos fechados, as mãos unidas com força.
Sempre era depois das dez.
10:07.
Silêncio.
10:09.
Nada.
O ar pareceu leve demais. Errado.
Ela quase respirou aliviada.
O rangido da porta cortou o quarto.
Seu corpo enrijeceu antes mesmo do toque.
— Xiu…
Ela obedeceu, como sempre.
O relógio avançou.
10:10.
Outro som.
Mais alto. Seco.
O peso sobre ela sumiu.
O silêncio voltou diferente. Denso.
O homem tombou.
Atrás dele, na porta, a mãe. A arma ainda erguida. Olhos vazios.
A bala atravessou o corpo e o relógio.
O vidro se partiu.
Os ponteiros pararam.
10:10.
Ela entrou devagar e sentou na cama.
Puxou a filha para si.
— Agora… acabou.
A menina não abriu os olhos.
Não por medo.
Por costume.
Um microconto brutal sobre trauma, silêncio e justiça tardia.
Dia 4 — Último Domingo

Há trinta anos mantinham o mesmo ritual. No último domingo de cada mês, vestiam-se para celebrar, como dois adolescentes atrasados pelo tempo.
Ela escolhia lantejoulas, franjas e cores impossíveis.
Ele preferia estampas selvagens, correntes douradas e cartolas exageradas.
De mãos dadas, calçavam os patins e deslizavam pela orla.
Amavam sentir o vento salobre lamber seus rostos.
Quem os via ria, acenava, tirava fotos. Eles retribuíam com sorrisos largos.
Era bonito vê-los assim: fiéis, leves, inseparáveis.
Depois da volta, passavam numa floricultura.
Sempre rosas amarelas.
Em casa, abriam vinho e brindavam em silêncio diante do quintal recém-revolvido.
Trinta anos sem suspeitas.
Trezentas e sessenta obras concluídas.
Ela apertou a mão do marido.
— Precisamos comprar uma casa maior, meu amor.
Ele olhou para o jardim tomado por terra fresca.
Já não restava espaço para os corpos.
Amor longevo, aparência encantadora e um jardim cheio de segredos.
Dia 5 — Vermelho

O uivo dos lobos não a assustava.
Percorrera aquele caminho muitas vezes. Desta vez, sem frio.
A neve brilhava sob a lua cheia. Vestia um casaco da cor do sangue.
Na cabana, ele dormia pesado. Ela entrou sem tocar na porta.
Sentou ao lado da cama e abriu a pasta.
A faca ainda estava fria. A mesma de anos atrás.
Ele despertou no primeiro golpe. No segundo, reconheceu o rosto. Tentou gritar.
No décimo, ela sorria.
Quando amanheceu, encontraram o corpo perfurado.
Na neve, apenas pegadas indo até a casa.
Nenhuma voltando.
Releitura sombria de vingança feminina com atmosfera de conto clássico.
Dia 6 — Mesa posta

Caprichou nas flores, nas cores e nas louças alegres. As amigas comeram felizes o prato principal.
— Paulo deixou você receber visitas?
Ela sorriu, enchendo as taças. Olhou a travessa vazia.
— Digamos que, desta vez, ele participou.
O jantar estava delicioso.
Ninguém reconheceu o gosto.
Ironia cruel servida em jantar elegante.
Dia 7 — Travessia

A chuva apagou os vestígios. Corria com o coração na sacola. No trânsito parado, atravessou o próprio corpo. Morrera fugindo.
Brevíssimo, intenso e mortal: fuga, chuva e ruptura final.
Bastidores criativos
Escrever um microconto por dia foi um exercício de rapidez, entrega e coragem criativa. Cada imagem proposta no desafio exigia mergulho imediato, síntese narrativa e impacto emocional em poucas linhas.
Mais do que um desafio literário, foi uma reconexão com o prazer de criar.
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Se você ama escrever e deseja explorar sua criatividade, acompanhe a Literária Mais. O próximo desafio pode revelar sua próxima grande história.
Em sete dias, sete histórias provaram que o medo, a dor e a beleza também cabem em poucas linhas.
Rich Snippet FAQ
Quem é Thaisa Lima?
Thaisa Lima é escritora brasileira, autora independente e criadora de conteúdo digital. Publica contos, crônicas e romances desde 2018.
Sobre o que são os microcontos de Thaisa Lima?
Seus microcontos exploram suspense psicológico, terror, ironia, crítica social e emoções intensas.
O que foi o Desafio Literária Mais?
Um desafio criativo de sete dias em que escritoras produziram microcontos a partir de imagens e provocações literárias.
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