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O Sistema e a Dor Invisível: quando a sociedade normaliza o preconceito

Imagem dividida entre uma cena antiga de pessoas reunidas em conversa em uma varanda simples, com um senhor negro sorrindo, e uma mulher aguardando em fila de banco diante de tela com aviso de sistema fora do ar, simbolizando a dor invisível, as mudanças sociais e a dependência tecnológica.

A crônica O Sistema e a Dor Invisível, de Mércia Souza, traz uma reflexão profunda sobre racismo, misoginia e a desumanização provocada por preconceitos normalizados na sociedade.


A dor invisível aparece de muitas formas. Aguardo na fila de atendimento para refazer minha senha bancária. O que deveria demorar apenas cinco ou dez minutos já passa dos quarenta - problemas no sistema. A espera me faz lembrar de um grande e querido amigo que partiu cedo demais, aos quarenta anos, vítima da COVID-19.


Ele acompanhou as mudanças digitais e a ascensão das redes sociais, mas não aderiu a praticamente nenhuma delas; mantinha apenas o e-mail por obrigação profissional. Ele sempre dizia: "Quer saber a verdade? A internet veio resolver problemas que antes não existiam". Não sei onde ele ouviu essa frase, mas a repetia insistentemente. Hoje, a espera devido a uma falha tecnológica me trouxe a recordação dessa bela amizade interrompida bruscamente.


A saudade me resgatou nossas longas conversas filosóficas. Atualmente, vivemos um debate intenso sobre misoginia, e eu me pergunto: qual é a dificuldade de entender que tudo aquilo que prejudica o outro é errado? Ponto final. Não existe um "mas". Não é uma "simples brincadeira" quando minha atitude, minha postagem ou minhas piadas tendem a ofender, diminuir ou menosprezar.


Lembrei-me de quando despertei para isso. Cresci em uma época em que o racismo e as piadas racistas eram considerados naturais. Eu, mulher branca, em uma região predominantemente branca com uma minoria negra, ouvia ofensas reproduzidas diariamente diante de pessoas negras, em sua maioria descendentes de escravizados. Era comum ver rodas de brancos com dois ou três negros - todos "amigos" - entremeadas por piadas racistas. Na minha cabeça de criança, aquilo era o normal.


Eu tinha doze anos e brincava com amigos da minha idade enquanto, na varanda, os adultos conversavam e riam. Quando contavam piadas racistas, todos riam, inclusive os negros - o que alimentava a velha desculpa de que "se ele riu, é porque não doeu".


Por alguma razão, em determinado momento, enquanto alguém disparava uma dessas "piadas normais", olhei para um senhor negro. Sua pele exibia rugas talhadas mais pelo trabalho pesado, de sol a sol, do que pela idade. Ele ria com os outros, mas, naquele instante, vi a dor que a piada carregava estampada no fundo dos seus olhos. Naquele dia, aprendi a diferença entre uma brincadeira e a necessidade de se colocar como superior através da dor alheia.


Hoje, vejo adultos vividos chamando a misoginia de "polêmica" ou dizendo que vivemos em um mundo de "mimimi", onde tudo seria ofensivo. Há uma categoria de pessoas influenciando outras a acreditarem que são superiores. Assim, as minorias que vivem à margem da sociedade não percebem que pobres, pretos e mulheres

são justamente aqueles que sustentam a classe que alimenta a ideia do "apenas uma brincadeirinha". Isso mantém viva aquela dor que vi há anos, dividindo aqueles que deveriam se unir.


Enquanto um homem branco grava um vídeo categorizando ou diminuindo uma mulher, ou lucra com piadas racistas, as mulheres se dividem entre ser "contra ou a favor" do feminismo. Esquecem de avaliar que as mulheres negras sempre enfrentaram duplas jornadas; que mulheres brancas sustentaram e continuam a sustentar trabalhos não pagos; que meninos pretos de periferia crescem destinados a subempregos e que homens pretos, mesmo graduados, muitas vezes são mantidos em postos de baixa remuneração.


Divididos e convencidos de que brancos são superiores a pretos, homens a mulheres, heterossexuais a LGBTQI+ ou que certas religiões são melhores que outras, mantemos o enriquecimento daqueles que nos convencem de que tudo não passa de censura ou "mimimi".


Enquanto isso, tornamo-nos cada vez mais incapazes de enxergar a dor por trás do que chamamos de diversão. Estamos perdendo nossa humanidade; corremos o risco de virar apenas zumbis comandados por algoritmos e redes sociais.

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